Como será a relação das crianças com as telas após a pandemia?

Artigo de Kátia Keiko Matunaga

Ainda não sabemos o que será esse “novo normal”, expressão que está presente em quase todas as reflexões sobre o mundo pós-pandemia. Algumas coisas mudarão, porque precisarão ser diferentes, quer seja pelos protocolos sanitários adotados para garantir a segurança de todos, quer seja pelas questões econômicas.

Pedagoga faz reflexão sobre o comportamento das crianças após a pandemia. Crédito: Pixabay

Outras mudarão, porque, em meio a essa tempestade, tem sido necessário nos “reinventar” (outra expressão muito usada atualmente) para lidar com a nova realidade e descobrirmos boas práticas.

Talvez, por exemplo, nem todas as reuniões precisem ser presenciais, o que diminui a necessidade de deslocamentos, algo importante nos grandes centros urbanos. Talvez, a literatura passe a ocupar um espaço maior na vida das pessoas, das famílias, uma vez que alguns pais têm lido mais para os seus filhos.

Talvez as lives se fortaleçam como um canal de comunicação interessante para aproximar pessoas com interesses em comum. O fato é que, passado este momento, poderemos avaliar o que fica deste episódio como legado para a sociedade.

Mas há questões que chamam a atenção e precisam ser refletidas: Como será a relação das crianças com as telas depois disto tudo que vivemos? Desta imersão precoce em algumas idades? Do uso desta via de comunicação? O que dizer quando o assunto é infância e telas?

Nos depoimentos que tenho ouvido de pais de crianças pequenas, percebo algumas preocupações e constatações semelhantes: quase todos se sentem culpados diante deste cenário tão inesperado e desafiador, e dizem não conseguir blindar as crianças, mesmo as de 1 ano, do ambiente digital.

Isso acontece por dois motivos, segundo eles: primeiro, porque esse passou a ser o único canal de contato com o mundo além da casa e segundo, porque muitos pais, em algum momento, precisam entreter os filhos para poder dar conta do home office, dos serviços domésticos, das tarefas do irmão mais velho…

Junte-se a isso o fato de que muitas escolas, mesmo as de educação infantil, vêm produzindo conteúdos online para essa faixa etária, uma vez que esse também foi o único canal de ligação que restou para que famílias e crianças, sobretudo das escolas privadas, pudessem manter contato com a escola neste cenário de distanciamento social.

Kátia Keiko Matunaga é coordenadora pedagógica da Escola Viva. Crédito: Divulgação

Porém, no “novo normal”, é imperativo que as crianças com menos de 3 anos continuem sendo poupadas das telas. Assim que puderem, devem privilegiar as interações com outros adultos e com seus pares. As telas entraram no lugar da relação presencial unicamente porque esta não é possível agora, mas nada substitui a experiência com o outro, com o ambiente, com o espaço.

Para a criança em anos iniciais nada substitui o olhar, o tom de voz, a temperatura da pele sentida no toque. A criança pequena é corpo, é movimento, é relação. Sua inteligência é prática, motora e sensorial, e ela precisa do outro e de experiências concretas para desenvolver-se física, psíquica e cognitivamente. Experiências que são intencionalmente planejadas no ambiente escolar.

Muitas escolas de educação infantil precisaram usar o ambiente digital para garantir a manutenção dos vínculos construídos com as crianças, sustentar os processos de aprendizagem já iniciados na escola, bem como para ser, neste momento, uma rede de apoio aos pais dos pequenos. Na Escola Viva, por exemplo, fizemos isso oferecendo atividades por um portal de uso exclusivo das famílias.

Essas atividades não estavam restritas à tela, precisavam da mediação do adulto e foram criadas a partir do interesse das crianças, do que os professores sabiam a respeito delas e do que percebiam nos encontros virtuais. Deixar o computador no chão para ver o corpo todo, silenciar para escutar, perceber um gesto, para onde a criança está olhando foram estratégias descobertas aos poucos.

Planejamos cuidadosamente esses encontros virtuais, individuais ou em pequenos grupos, sempre mediados pelos pais, e observamos e ouvimos crianças e famílias nessas ocasiões. Orientamos os pais a observarem seus filhos para que pudessem avaliar se esses encontros eram positivos ou geravam qualquer sinal de ansiedade.

As professoras gravaram histórias e músicas conhecidas pelas crianças na tentativa de trazer algum indício de pessoalidade na relação com os vídeos, e fizemos questão que fossem de curta duração.

Também por meio do ambiente virtual, pudemos conversar com os pais, abrir espaços de escuta e de troca, destacando todo o potencial de aprendizagem presente nas atividades cotidianas de casa. Quantas descobertas importantes foram compartilhadas!

Assim, entendemos que a combinação “primeira infância e tela” é algo datado e pontual. Recurso para ter companhia nesta travessia, para manter a ligação com as pessoas queridas e com o mundo que existia antes desta pausa.

Mesmo assim, cuidar do tempo, da qualidade, do conteúdo e ter sempre a mediação do adulto são aspectos fundamentais que devem ser considerados para proteger as crianças do excesso de exposição.

No novo normal, muito mais do que com as telas, a criança vai continuar combinando com brincadeira, com parceria e quintal.

 

Kátia Keiko Matunaga é coordenadora pedagógica da Escola Viva, pedagoga e colaborou nos livros: “A Arte de Brincar”, de Adriana Friedmann – Ed. Scritta e “Brincar, Crescer e Aprender: O Resgate do Jogo Infantil”, de Adriana Friedmann – Ed. Moderna.

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